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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Amor às Estrelas

Me perdoa, Deus, por compartilhar um sentimento desse que é tão Teu. Mas, eu fico imaginando que, se um mísero mortal como eu, vivendo tão pouco e tão rápido, admira tanto, nesses segundos de vida, os milésimos que as pessoas queridas alcançam crescendo, se desenvolvendo, desabrochando, eu fico imaginando como é infinitamente lindo, o Senhor aí nessa vastidão, olhando zilhões de sóis surgindo, dando vida a multiplicados planetas, e neles, tantas outras estrelinhas humanas, Tuas filhas, que todo dia, alguém, crescendo, se ascende mais. Eu não mereço sentir um milionésimo desse Teu absoluto amor!
 
Quando eu for pai, quero ser igual ao Senhor. E ficar marcando na parede desse meu pequeno universo, todo mês, um tracinho, que vai fazer lembrar que o meu pequenino, um dia, foi pequenino. Mas, não vou querer que ele fique no tracinho. Nunca! Vou deixar ele fazer milhões de tracinhos em mim, com guache e com chocolate. Até o dia em que ele conseguir, sem subir em cadeira nenhuma, desenhar, lá do alto onde ele estiver, fazer um tracinho na minha careca corcunda que já vai estar reluzente, feito estrelinha, apontada pro céu, refletindo o Senhor, meu Pai!

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Um Recanto

Longe, muito longe da medula da cidade
Buracos, pista mal cuidada, fendas no solo
Separavam a gente daquela gente
Em um lar humilde de nome Chico Xavier

Chegando lá, atraído pela insistência, 
Pedido amoroso e repetido de seu tio,
A música dançava no ar
Feito uma redoma de abraço e paz

Filho, não há igreja, nem com todos os vitrais
Nem com todas as abóbadas pintadas
Por mil miquelângelos trabalhadas
Nem com mil imagens esculpidas em ouro
Pelo mais inspirado escultor
Que chegue aos pés e ao chão rachados
Daquele centro de amor

Sem púlpito que denunciasse um superior
Com falas que corriam entre os risos
E lembravam as façanhas de nossos mestres
Que passaram na Terra e na terra

Senti que eles mesmos ali estavam presentes
Arando nosso coração
Esculpindo nossa alma
Colorindo nosso semblante de alegria

A prece, meu pequeno, não evoca espírito algum
Ela assume a nossa condição de estar cercado por eles
Num diálogo infinito

segunda-feira, 14 de março de 2011

Circo de dores. Circo de amores.

Eu queria que sua estadia por aqui fosse só felicidade. Mas, ensinaram-me os Espíritos que esse desejo não pode vingar. É que você precisa crescer e, nesse planeta, a dor nos desperta para esse intento. Do contrário, a gente passaria a vida brincando no parquinho, fazendo piquenique, comprando pipoca e ingresso para assistir as acrobacias do circo.

A gente ia se esquecer que a nossa diversão é sustentada por um conjunto de pessoas que não se diverte enquanto a gente acha graça e que existe uma cerca nos protegendo das crianças que tem fome e olham pedintes para os doces que se espalham no tapete que trouxemos para repousar na grama.

Eu tenho andado triste e raivoso, filho. Sua avó vem piorando e ela espalha o desespero dela nos mais próximos. Você vê que ela não pode ficar sem cuidado um minuto. Vê como ela não aceita os remédios, preferindo sobrecarregar os outros de cuidados. Você viu como eu tive de voltar cedo para o meu corpo dormido para ajudá-la a se levantar.

Você viu como seu pai chegou cansado em casa antes de ontem e triste, muito triste com o futuro de uma criança que tenta sobreviver dentro da barriga de uma mãe que acompanho. Ela vai nascer de pais separados e briguentos. Vai nascer depois de ter sido submetida a drogas várias. E pior, vai nascer sem ter sido desejada da menor forma. Mas, ela é guerreira e parece ter Anjos muito dedicados. Cresce normal, seu coração é forte e mexe como um touro.

Não posso criticar a mãezinha dela, filho. Essa moça que eu estou assistindo foi jogada na rua quando nasceu. Foi criada pela tia. Tem uma relação difícil e violenta com o parceiro. Tem revoltas silenciosas. Prefere ficar isolada.

Hoje vou dedicar o meu dia a ler sobre Deus e suas possibilidades de existir no nosso coração. Estou precisando dessa leitura.

Não tenha medo. Não será nada disso com você. Ainda que minhas dívidas com o Criador cheguem ao momento de serem quitadas e comecem a aparecer na forma de doenças pelo meu corpo, ou me afastando das posses que hoje temos; ainda que você venha com necessidades especiais para crescer um Espírito mais forte, eu vou te receber nos braços com lágrimas nos olhos de esperança e vou pular feito um palhaço, voar nas estrelas feito um acrobata, sentir a vida no doce da língua e nos cercar, eu e sua mãe – ela também te quer muito –  de amor por você.

Sinto-me um pouco melhor agora. Fica em paz.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Perdoe e Ajude

Sua tia mandou um desafio pra gente. Ela pediu para termos paciência com os insultos que os outros nos dirigem. Mais do que isso! Ela pediu para que reconhecêssemos que aquele insulto só nos incomoda porque ainda somos pessoas que também insultam os outros. E nós não gostamos de reconhecer que existe o mesmo mal dentro da gente.

Papai chegou cansado em casa. Deixei de atender um doente no posto de saúde porque eu estava cansado e já era perto do almoço. Mas o Vovô Bezerra, que eu pedi para que fosse meu professor espiritual de medicina, me colocou na porta mais três pacientes, um deles muito abatido, que despertou minha piedade. Eu entendi o recado.

Fui almoçar tarde, mas ainda tinha comida em algum restaurante.

Tive que ajudar sua mãe no trabalho. Ela precisava, aproveitando rapidamente o recreio, pegar um documento em outro canto da cidade. O trânsito todo estava horrível! Espero que as pessoas estejam mais educadas quando for sua vez de dirigir.

Depois fomos pra casa dela e ficamos do lado de fora, sem a chave, com fome. E a coca-cola que a gente tinha comprado não queria abrir. Aproveitamos para conversar sobre a vida, enquanto sua avó chegava, cansada do mesmo trânsito, para nos colocar pra dentro.

Eu fiquei estudando algumas horas pra tentar ver como poderia resolver uma dor de cabeça que uma senhora estava tendo há mais de uma semana.

Então, e só depois de ter estudado, eu fui pra minha casa onde estava sua outra avó. A que treme o braço. Ela estava triste, filho. Na verdade, estava chateada. Queria que eu tivesse chegado mais cedo para ajudá-la.

Eu tomei um banho para deixar escorrer o cansaço, e fui cuidar do braço dela, que dói e que pesa. Fui com calma e cuidado e carinho. Mas, ela não parava de reclamar. Não dos meus cuidados, mas da minha falta, da minha ausência, da minha pouca ajuda no resto do dia.

Eu me lembrei do que sua tia havia pedido pra eu fazer: ter paciência. É que, disse o Espírito Amigo que falou pra ela, a vida faz um monte de furinhos na gente, que são bem pequenos, quase nada, mas que acabam ferindo e fazendo a gente sangrar. Aí me lembrei também que muitas vezes eu reclamo demais dos outros, sem perceber o quanto a vida dos outros é demais doída. Doída igual o braço da sua avó, que ela diz que dói e queima, mas eu nunca vou entender exatamente o que ela sofre.

Foi pela minha ignorância diante dessa dor que eu li a mensagem do Espírito Amigo. Li alto pra mim e pra ela. Eu disse que realmente não entendia o que era aquilo, mas que eu estava ali pra ajudar. Só pedi, por favor, que ela não tornasse a coisa ainda mais amarga, feito café sem açúcar. Fiz um Pai Nosso. Depois, uma prece de improviso e de coração. O braço dela foi se acalmando, e o remédio fazendo efeito.

Diz pro vovô, pro meu pai, que deve tá te fazendo todo o mimo do universo por aí, que eu adoro quando ele vem aqui, deixa cheiro de rosas e adoça a nossa casa.  

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Antes que você encarne

Há poucos dias eu tive um encontro bom com um Espírito Benevolente. Por Deus, meu filho, teu pai chorou como talvez você venha a chorar quando estiver com medo do escuro, com medo de dormir sozinho, com medo de que eu vá embora e que não volte. Aliás, filho, o meu choro, na verdade, não foi um choro de solidão. Teu pai chorou como talvez você chore logo que nascer. Um choro de quem está desnudo e com frio. Mas, as lágrimas tiveram o poder de me esquentar como terá o seio da tua mãe pouco tempo depois de você já estar aqui.

Fui a Sacramento, cidade de Eurípedes Barsanulfo. Ele era um professor de crianças. Você deve ter ouvido falar dele por aí. Fez um trabalho inigualável educando os Espíritos encarnados nesse país de provações. Ensinou-lhes que, embora estivessem nesse mundo, não pertenciam a ele. Ensinou-lhes a ver as estrelas. Ensinou-lhes que Deus se esconde em cada pequena porção da Natureza. Ensinou-lhes a encontrar Deus com a inteligência e com o coração. Ensinou-lhes algo ainda mais extraordinário: que a morte não existe. E me ensinou isso de tal forma e com tamanha naturalidade que me vi livre para desde já falar com você.

Não preciso nem dizer a quem ele servia. Ora, servia àquele cujo nome se espalha por todos os cantos, em cânticos e preces, de onde você está. Jesus! Por aqui seu nome ainda se esconde no coração de pessoas como Eurípedes, que grita seu nome para que os surdos ouçam e faz coisas extraordinárias para que os cegos vejam. Mas poucos se mantêm na fé.

O Encontro de Sacramento já acontece pela 43ª vez. Muitas pessoas que acreditam nessas coisas, os espíritas, se reúnem para aprender o que Eurípedes, mesmo já tendo saído da carne, ainda continua a ensinar. Dessa vez ele falava sobre a liberdade. E como ser livre para Deus.

Claro que, sem corpo, ele não tem como falar para que eu escute com os ouvidos. Então, ele se utilizou de uma senhora fantástica, cujos olhos verdes têm um certo mistério de te olhar por dentro. Aliás, várias pessoas queridas nesse lugar tinham esse mistério. Acho que desenvolvidas pelo amor.

As lições de Eurípedes me chegaram de outra forma, também. Ele falou ao meu Espírito.

Houve um momento, em que eu me afastei do público atento e fui passear pelo colégio onde estávamos: o Colégio Allan Kardec. Minha atenção foi chamada para um quarto que possuía as coisas que haviam feito parte da história de Eurípedes quando ele estava encarnado. Eu percorri os meus olhos com toda a lentidão de quem come doce. E quando eu olhei para ele, o retrato dele em um quadro enorme. Eu dei pra chorar um choro intenso, mas um choro bom. Um choro de quem tivesse encotrado um pai, ou um irmão mais velho querido, depois de ter passado horas (ou anos!) perdido longe de casa.

Eu me revelei na minha inferioridade e, não sei se já posso contar isso a você, no meu orgulho e na minha vaidade. Sim, meu filho amado, seu pai não é perfeito. E minhas chagas se mostraram para o professor expostas sem pudor. Foi um choque e uma surpresa. Ele parecia me fazer um convite. Um convite para que eu, finalmente, trabalhasse na mesma seara a que ele se dedica. Ele queria que eu também o ajudasse a Evangelizar os Espíritos. Eu que até então estava imerso no meu mundo de fazer sobreviver apenas o meu mundo e os meus amores.

Me recompondo, voltei até onde aquela senhora de olhos verdes misteriosos falava e falava sobre tudo o que Eurípedes queria ensinar pra gente. E tão logo ela acabou de falar, um coro de crianças e jovens, começa a cantar músicas sobre libertação e despertar. Meus olhos já estavam rasos de tanto chorar. Mas, para completar, a mulher misteriosa deu de deixar passar a fala de um Espírito muito querido, do qual você também já deve ter ouvido falar. Ele sempre se apresenta velhinho, olhos claros e barbas brancas. Fala compassada e humilde. Era Bezerra de Menezes. Ele disse que, onde quer que estivéssemos, eles, os Espíritos Benvolentes, estariam conosco, e que nós não tínhamos idéia do quanto todos eles amavam aqueles que serviam Jesus.

Eu vou começar aos poucos, querido. Vou lhe deixar a par de tudo o que estou fazendo. Fui chamado para trabalhar por esta causa. Meu coração foi enlaçado por ela. Me faz bem te contar cada passo. Não estarei só. Você vai ver quando chegar aqui que terá tios e tias fantásticos. São meus irmãos queridos. Verá que nenhum laço de sangue tenho com eles. Perceberá que isso é o de menos e que o que nos une, para além do abismo do sangue ou da morte, é o amor que temos uns pelos outros.

Sei que já pode sentir isso, mesmo antes, muito antes, de a gente se ver.